A Sabesp perdeu a certificação dada pela renomada consultoria GPTW (Great Place to Work), que reconhece empresas que têm bom ambiente de trabalho, após os funcionários boicotarem a pesquisa anual de clima interno para protestar contra o projeto de privatização da companhia, dizem três colaboradores com conhecimento do assunto ouvidos pelo Portal UOL. Agora, a diretoria tenta reverter o prejuízo à imagem da companhia.
A reportagem teve acesso ao resultado da pesquisa divulgado internamente pela Sabesp aos seus empregados. O índice de aprovação da empresa de saneamento como um bom lugar para trabalhar foi de 64%, abaixo do mínimo de 70% necessário para receber a certificação. Nos dois anos anteriores, 72% do total de respondentes aprovaram o clima para trabalhar na Sabesp.
No documento interno, a Sabesp compartilhou comentários dos empregados sobre o que precisa ser melhorado na gestão de André Salcedo como presidente da empresa, incluindo dúvidas sobre o processo de privatização e críticas à falta de transparência na companhia. Confira abaixo alguns deles:
“[Falta] A definição clara sobre como o processo de privatização vai ser conduzido”
“Transparência! Ainda existe muita coisa que a empresa não divulga e deixa todos os colaboradores às cegas e ansiosos, principalmente na fase de mudanças que estamos passando”
“[É necessária] Mais contratação de trabalhadores, visto que os que saem não estão sendo repostos”
Para um dos empregados ouvidos pelo UOL, o resultado da pesquisa mostra o atual momento da Sabesp. "Uma parcela está com medo do que vai acontecer se a privatização for concretizada. E a outra está desanimada, sem perspectiva de construir carreira na empresa", disse.
Por outro lado, um funcionário da companhia ouvido pela reportagem reclama que a diretoria não dá espaço para ouvir a equipe, que vive sob "clima de intimidação". "Eles [diretores da Sabesp] conversaram com alguém? Não. Ele [André Salcedo] faz lives, mas só ele fala. Não se cria na empresa um clima em que as pessoas possam expressar o que pensam", afirma o empregado.
Nos últimos dias, executivos do alto escalão da Sabesp se reuniram para discutir uma solução para reconquistar o GPTW em 2024. A Sabesp confirmou que atrelará resultado da pesquisa de clima organizacional ao PPR (Programa de Participação nos Resultados) da diretoria, dos superintendentes e gerentes.
Questionada pelo UOL, a companhia afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que a medida não será aplicada aos demais funcionários.
A empresa de saneamento conquistou a certificação Great Place to Work em 2021 e 2022. No último relatório de sustentabilidade, publicado há dois anos, a Sabesp declarou que atingiu "ótimos índices" na pesquisa de clima organizacional. A companhia nunca entrou no ranking de "Melhores empresas para trabalhar", apenas recebeu o selo da pesquisa.
Procurada, a Sabesp reconheceu que deixou de ganhar a chancela do GPTW em 2023. A companhia de saneamento diz que "mudanças no cenário externo" e "a reorganização empresarial interna" impactaram o resultado da pesquisa. No entanto, não respondeu aos questionamentos sobre o boicote por parte dos funcionários.
O GPTW também confirmou a informação. Em nota, a consultoria diz que a Sabesp não consta na lista de empresas certificadas, mas não esclareceu quantos funcionários participaram da pesquisa em 2023 e em anos anteriores. "Não divulgamos as empresas que participam do processo, apenas as empresas certificadas e ranqueadas", destaca a consultoria.
As respostas são anônimas e individuais, diz a consultoria. O GPTW afirma em seu site que as organizações devem seguir o termo de compromisso, ou seja, não podem obrigar os empregados a responder às perguntas ou cobrar respostas deles, bem como coagir ou oferecer bonificações por participarem da pesquisa.
O processo de certificação é diferente do de premiação das melhores empresas. Enquanto o primeiro utiliza exclusivamente a avaliação dos funcionários, o segundo conta com especialistas do GPTW que analisam as práticas de gestão de pessoas das companhias já certificadas.
