“Setor privado nunca investiu recursos próprios em saneamento”, alerta a professora Ana Lúcia Britto


“A venda das empresas estatais de saneamento ameaça a população de baixa renda, já que a iniciativa privada não tem o costume de financiar de maneira autônoma obras no setor.” Este foi o alerta da coordenadora de projetos do ONDAS, Ana Lúcia Britto, no programa Faixa Livre, transmitido pela Rádio Bandeirantes Rio, em 19/11.  Ana também é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenadora do Laboratório de Estudos de Águas Urbanas e pesquisadora do Observatório das Metrópoles.

Exemplificando o que pode acontecer, caso o PL 3261/19 seja aprovado e haja uma mudança de postura dos empresários, Ana afirmou que “se você olhar o histórico dos investimentos em saneamento, vai ver que o setor privado até hoje, que é minoritário, sempre investiu com recursos seja do FGTS, que são da Caixa Econômica, seja do BNDES via PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Quer dizer, o setor privado nunca investiu com recursos próprios, ele captou recursos públicos e a custo baixo. Agora que o setor público não tem mais recursos, o governo tem a ilusão que o setor privado investirá recursos próprios”.

“Digamos que uma empresa privada resolva captar recursos junto ao Banco Itaú. Não será evidentemente com os juros do FGTS, nem com os do BNDES, será com juros muito mais altos. A empresa privada evidentemente tem interesse em lucro, então ela vai transferir esses valores para as tarifas. O que virá será um tarifaço, excluindo o pouco percentual da população pobre que tem acesso ao serviço”, alertou a professora.

O PL 3261/19, em tramitação no Congresso, acaba com os chamados ‘contratos de programa’, que permitem às prefeituras contratarem empresas estaduais de saneamento para atuar nas cidades sem a necessidade de uma licitação. Esse projeto exige o estabelecimento de concorrência, abrindo espaço para a atuação do capital privado.

Com um déficit elevado na cobertura de coleta de esgoto, o Brasil encara o desafio de aumentar os índices. Nas regiões Norte e Nordeste, apenas 10,24% e 26,87% das residências, respectivamente, contam com redes de saneamento.

“Em anos anteriores houve avanços no setor do saneamento. Tivemos o marco regulatório que chegou a ser consensual, recursos do PAC, etc. Agora você não tem projeto, não tem recurso e tem a proposta de que o setor privado irá investir, o que é um contrassenso porque o setor privado não vai investir onde estão as maiores carências, que são nas periferias urbanas das cidades, na área rural, que são muito carentes, com capacidade de pagamento baixíssima e necessidade de investimento alto”, encerrou a professora.

Fonte: Ondas

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