Assembleia tomada e confronto levam à retirada de “pacotaço”

Faltavam poucos minutos para as 15 horas de ontem quando o estouro das primeiras bombas disparadas pela Polícia Militar pôde ser ouvido no restaurante da Assembleia Legislativa do Paraná. Das janelas do 5.º andar do prédio administrativo da Casa, onde ocorria a sessão improvisada para votação dos projetos polêmicos do governo, os deputados observavam apreensivos centenas de servidores avançarem em direção aos policiais que garantiam o andamento dos trabalhos legislativos. Na iminência de uma tragédia, a sessão foi encerrada e o Executivo anunciou a retirada das duas propostas que levaram à paralisação de vários serviços públicos nos últimos dias.

Num texto de quatro linhas endereçado ao presidente da Assembleia, Ademar Traiano (PSDB), a Casa Civil solicitou a retirada das matérias em tramitação para reexame, “em virtude das manifestações” e como forma de “garantir a segurança e a integridade física” dos deputados. A carta foi uma forma de acalmar os servidores que gritavam “só com documento”, logo após serem informados de que a sessão havia sido encerrada e que o governo concordava em retirar as propostas. Com o papel em mãos, eles deixaram o pátio da Casa bradando “vitória, vitória”.

Formalmente, porém, o texto assinado pelo diretor-geral da Casa Civil, Alexandre Teixeira, não tem validade. Na próxima sessão, marcada para o dia 23, será preciso ler o documento em plenário.

Tragédia anunciada

O clima de tensão na Assembleia era evidente desde as primeiras horas do dia, diante da decisão do governo e da base aliada de manter a votação dos projetos em sessão aberta apenas à imprensa e sob o regime de comissão geral, o popular “tratoraço”. Na tentativa de impedir que os deputados entrassem na Casa para a sessão marcada para as 14h30, os servidores cercaram todo o quarteirão, inclusive em torno do Tribunal de Justiça, por onde há um acesso para chegar ao Legislativo.

Sem alternativa, 33 dos 54 parlamentares – entre eles Traiano e o líder do governo, Luiz Claudio Romanelli (PMDB) − chegaram à Assembleia dentro de um ônibus da tropa de choque da Polícia Militar, na companhia do secretário de Segurança Pública, Fernando Francischini. Policiais cortaram com alicate uma parte da grade que cerca o prédio e escoltaram os deputados até uma porta alternativa do térreo do prédio administrativo.

A manobra foi como jogar gasolina na fogueira que já queimava alto. Imediatamente, alguns manifestantes começaram a forçar as grades para ter acesso ao pátio da Casa. Enquanto isso, a sessão foi iniciada sob a aparência de tranquilidade no 5.º andar. Bastaram poucos minutos, porém, para os servidores derrubarem dois portões e, às centenas, chegarem ao primeiro cordão de isolamento feito pelos policiais sob uma chuva torrencial.

O resultado foram balas de borracha, bombas de efeito moral e gás de pimenta, que podia ser sentido de onde se realizava a sessão. A entrada dos servidores no prédio, que tem uma única entrada, encurralaria os deputados no restaurante. “Ou vocês acalmam essas pessoas ou vai dar morte”, pediu Fernando Francischini ao líder da oposição, Tadeu Veneri (PT).

Temendo o pior, Romanelli retirou o pedido de comissão geral, para que os projetos tivessem a tramitação normal. Quase que simultaneamente, Traiano suspendeu os trabalhos e, logo em seguida, encerrou a sessão. Após a oposição acalmar os servidores e os governistas negociarem com o Palácio Iguaçu, os deputados, que se refugiaram na sala da presidência, no 2.º andar, conseguiram que o Executivo recuasse e pedisse a devolução das matérias. Após algumas horas, todos os manifestantes haviam deixado a Assembleia no início da noite.

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